Julio Ribeiro e A Era da Perplexidade.

A ERA DA PERPLEXIDADE

Ronaldo Mundial

Ronaldo Mundial

Julio Ribeiro, presidente da Talent, um ídolo, um guru e ícone para mim, foi um dos palestrantes do IV Congresso de Publicidade.

O tema da palestra dele foi”A Era da Perplexidade”.

Na ocasião, Julio comentou da maravilha que é viver neste mundo, com mudanças intensas e rápidas, que viu o surgimento da internet, do celular, da TV digital e da clonagem em menos de suas décadas.
Abaixo, reproduzi um pouco dessa reflexão do Julio. E olha que ele vem acertando muita coisa.

A ERA DA PERPLEXIDADE – JULIO RIBEIRO
“ Eu queria iniciar esta palestra dando os parabéns a todos que estão aqui neste momento. Parabéns por quê?
Porque estamos tendo uma oportunidade inédita: a de viver numa das eras de maior inovações que a humanidade já viveu.

Em menos de duas décadas surgiram a internet, o telefone celular, a tv digital, o IPhone, o DVD, a clonagem da ovelha Dolly, a célula tronco, o euro, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, a descoberta de 10 bilhões de litros de petróleo na bacia de Santos, um metalúrgico que se tornou o presidente da república, o casamento de pessoas do mesmo sexo, o surgimento de 1,5 bilhões de internautas, bilhões de usuários de celulares, telefone de graça, a economia da China encostando na economia americana, o surgimento das multinacionais brasileiras, o Brasil ter mais reservas cambiais do que a Alemanha ou a França, os padres não poderem tomar vinho na missa e dirigir e o limite de consumo de álcool para motoristas girar em torno de dois bombons de licor.
É desafiador também o fato de que as respostas que as agências de publicidade acumularam em cem anos de atividade não servirem mais para sua operação porque as perguntas que o mercado está fazendo mudaram e não correspondem mais a elas ou às respostas que os alunos aprendem nas faculdades. Quase tudo o que se aprendeu não serve mais para nos ajudar a trabalhar. Pessoalmente eu acho isso fascinante. Acho maravilhosa a oportunidade de se matar o conhecimento antigo e aprender de novo.

Em Cannes, este ano, uma das idéias premiadas foi a da agência que colocou uma fita azul a dois metros do chão em prédios e postes de cidades na Europa ao lado do cartaz: “Este é o nível que o mar vai chegar no ano 2.050 se a gente não diminuir o aquecimento global”.
A responsabilidade social e a preservação do meio ambiente passou a fazer parte da determinação do valor das empresas. Antes os rapazes se confessavam ao padre por passar a mão na namorada; hoje se confessam por ter jogado uma pilha no chão.

O mais fascinante ainda é que a intensidade dessas mudanças tende a se acelerar. O celular está virando televisão, cartão de credito, computador, máquina fotográfica e documento de identidade.
Neste quadro cresce a responsabilidade de formar profissionais. Na Talent há um ano contratamos um especialista para ensinar os diretores sobre como trabalhar em conjunto. Este ano estamos contratando um projeto de treinamento de pro-atividade. Criamos um departamento chamado “TLab” só para ter idéias. O grupo não tem chefe nem função no organograma. Desenvolvemos um produto denominado “Oxygen” operado pela área de planejamento exclusivamente para informar às equipes da agência sobre quais as tendências, modelos e aplicações de novas idéias através de pesquisa na internet e interação com outros profissionais.
Qual o modelo para se formar profissionais de comunicação e marketing de uma forma que não sejam entregues ao mercado formandos já obsoletos?

Eu sinceramente não sei porquanto não estou na área especifica de educação. Poderia porém apresentar algumas idéias que talvez possam ser de alguma utilidade ao se discutir o tema.
Uma das coisas que os profissionais mais carecem nas agências e áreas de marketing dos clientes é ter idéias; exercer o ato de pensar. O que eu percebo nas agências e clientes é a existência de uma grande capacidade de gestão e uma deficiente capacidade de inovação.

Como mudar isto?

Quero citar aqui um pensamento do filosofo inglês Bertrand Russel que ilustra uma grande possibilidade nessa linha quando diz: “Os cientistas olham o universo e perguntam por que? Eu olho para as coisas do mundo e pergunto: Por que não?” Em inglês essa pergunta é mais contundente “Why not?”

Um dos grandes gênios do século vinte foi o cientista americado, Richard Feynman. Irreverente, bem humorado gênio em diversas coisas: ganhou um prêmio Nobel de física, um concurso mundial de Bongô além de decifrar uma parte da escrita Maia quando em lua de mel no Peru ficou uma tarde sem ter o que fazer. Ele lecionou no Brasil durante alguns anos e tocava frigideira na Escola de Samba da Mangueira. Feynman, na sua autobiografia conta sua tristeza com a preocupação que os alunos no Brasil tinham em estudar para passar de ano e não para desenvolver as suas capacidades.

Eu acho que em vez de premiar a capacidade de memória dos alunos, as faculdades de comunicacão deveriam premiar o pensamento inovador e a pro-atividade, o “Why not?”
Um segundo fator que poderia ajudar tremendamente a formação de profissionais competentes é “o ato de fazer”.
Um dos melhores livros que eu já li em administração chama-se “Execução” em que três importantes consultores de empresa demonstram que as empresas fazem mais sucesso pela sua capacidade de executar, do que pela sua capacidade de criar.

Minha proposta seria formar nas escolas equipes que recebessem missões realmente difíceis para executar, como por exemplo, arranjar um emprego numa multinacional.

O prazer de pensar e transformar o pensamento em realidade são duas qualidades que mais faltam em todas as empresas que eu conheço e na minha mesmo. Todas as pessoas que tiverem a capacidade de fazer isso terão com certeza uma superioridade básica sobre todas as outras que decoram na escola e nas empresas informações esperando com isso serem promovidos.

Vamos ensinar as pessoas a pensar em como usar a comunicação para mudar o mundo em vez de simplesmente usa-la para procurar um emprego ou passar de ano. “Why not?”

Post enviado para Stachon por BENEDITO CANTANHEDE Publicitario, sócio-diretor de Planejamento  da  Bconsulting, Coordenador Geral da Escola de Publicidade e Propaganda do Centro Universitario da Cidade (UniverCidade) no Rio de Janeiro e professor da FGV-RJ (CADEMP RJ).

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